Sem pretensão de dar conselhos ou fórmulas sobre como obter e gozar de um relacionamento bem- sucedido, vou discorrer, sem grandes interpretações ou julgamentos, sobre o que acontece, quando um homem e uma mulher ou mesmo dois homens ou duas mulheres, se unem para constituir um núcleo familiar.
Sabemos que não há fórmulas prontas para qualquer relacionamento, mas as revistas e os conselhos de amigos e parentes são recheados delas, ou melhor, de formas definidas para se manter um relacionamento de qualidade e ser feliz.
É aí que está o começo do desencontro! Não se pode definir nada de antemão, numa relação dinâmica como é o casamento, senão incorreremos no erro mais comum e fatal aos relacionamentos que é engessá-lo num modelo construído a partir de fatores externos; muitas vezes, a partir de crenças ideológicas e políticas. Como sabemos, a história da vida privada e familiar é desenhada por interesses e mudanças que estão muito aquém do desejo pessoal e íntimo, levando em conta necessidades intrínsecas do indivíduo a partir de suas emoções.
Gostaria de abrir um parêntese para falar sobre o amor como nos ensinaram e como o concebemos.
Segundo o psiquiatra Gikovate, o amor, como o conhecemos, decorre de alguns aspectos próprios da natureza humana: o período prolongado de dependência da criança em relação à mãe e, nessa relação, o amor aprendido tem aspectos de doação total, onipresença, sacrifício da parte da mãe, gratidão e obediência como decorrência natural da situação.
Assim, aprendemos a associar ao amor uma carga de dominação e inúmeras exigências, principalmente, aprendemos que o amor dá direito à dominação. E mais: e mais, que o direito à liberdade deve ser confundido com desamor.
Até bem pouco tempo atrás, as mudanças não foram tão percebidas, pois o papel da mulher de subordinação era vivenciado de maneira natural sem grandes conflitos pela maioria de nós.
E sendo assim, queiramos ou não todos nós temos em mente esse amor idealizado ou a fantasia de que só amando assim se alcança a felicidade.
Dessa maneira nas ações do cotidiano, inconscientes é claro, mas dirigidas por essa crença internalizada faz com que caiamos em armadilhas... São armadilhas que, às vezes, passam despercebidas por quem as comete, mas em alguns casos, imperdoáveis por que as recebe.
Dessa forma o distanciamento começa a corroer a relação, não o distanciamento físico, mas o emocional o distanciamento do desejo, do projeto em comum.
Tudo isso é muito bonito e fácil de falar, mas no atropelamento de tantas necessidades, no acúmulo de funções e papéis como conseguir reverter uma situação crítica ou mesmo como reaprender a amar, levando em conta a necessidade de liberdade, de admiração, de cumplicidade? Difícil, não nego!
Mas por isso mesmo acho válido falar disso, pois temos tempo para reorganizarmos tudo em nossa vida, apenas não o temos nas relações afetivas, mas não por falta dele, do tempo que nos massacra, mas sim pela falta de hábito ,pela crença de que uma relação esse alimenta dela própria e de suas obrigações ,pelos papéis estagnados.
Reconhecendo que homens e mulheres são iguais nos seus direitos e deveres, vale ressaltar que numa relação a dois existe uma sutil diferença, tanto na percepção como no “timing” dessas insatisfações.
Esse ajuste da relação é a busca de um equilíbrio harmonioso entre os anseios de realização individual e liberdade e todas as necessidades humanas que devem ser totalmente desvinculadas de esquemas de posse e ciúmes.
Apesar disso é importante que tanto um quanto o outro tenha a percepção do problema e a maturidade de livremente discuti-lo, para que se crie uma nova forma de relacionamento bastante mais sincero e espontâneo, criando possibilidades de se corrigir os desencontros.
A discussão que não deve seguir o caminho da critica mútua e nem a razão de um ou outro,sob pena de estar repetindo e continuando o feitio antigo de culpa,subordinação e cerceamento da liberdade. Tudo isso é possível num processo de reinvenção, baseado na necessidade pessoal através da plena e sincera comunicação entre os parceiros. A forma possessiva tradicional daquilo que se chama de amor não tem mais lugar, apesar de que ainda, para todos nós, o sentimento de posse ainda continua sendo o cerne do amor, essa seja talvez a grande mudança que ainda está por vir para tornar a rima amor com dor definitivamente enterrada. |