mas para mim torna-se urgente falar de algo com que me deparo sempre na clínica de sexualidade feminina: a dicotomia mãe/mulher e que mesmo as mãezinhas nascidas e criadas em plena revolução sexual ainda teimam em reforçar. Nesse contexto as disfunções sexuais aparecem muito mais como sintoma do que patologia sexual.
Sem falar nos desencontros entre homens e mulheres que vemos, numa idade em que a plenitude hormonal, de vitalidade e maturidade teria como conseqüência natural zerado os conflitos na área sexual. O que estou dizendo? Será que as mulheres devem abandonar seu posto e dar vazão a seu potencial sexual sem se prender a nada nem ninguém?
Esse talvez seja o maior desafio da mulher: não misturar, ou melhor, saber separar os vários papéis que sagradamente lhes foram ofertados junto com a maravilha de ser mulher e mãe. Incluindo aí seu papel secreto, individual que nunca deve ser decifrado, mantendo uma de suas portas fechadas para não expor a alma de uma maneira desvalorizada e vulgarizada, às vezes por ela mesma quando chama suas potencialidades de sobrecarga de papéis. Realmente a maternidade é uma das experiências mais emocionantes e completas para a mulher, assim como a paternidade deveria ser para o pai. Hoje, ao contrário de outros tempos, o conceito de mãe e filho não é estranho à sociedade, mas revela um lado cruel que exige da mulher dedicação total e abnegada. Os homens devem e querem assumir a sua parte na história da educação dos filhos, comportamento que vem trazendo benefícios inegáveis na família moderna. Essa cumplicidade é vital nas relações da família e na vida do casal. Contudo, apesar disso, urge que homens e mulheres reservem um espaço nessa relação para cultivar os seres sexuais que são, mantendo além do vínculo familiar, importantíssimo diga-se, cuidar também da relação homem e mulher na sua individualidade, perpetuando a erotização do vínculo conjugal ou parental na maturidade sexual do corpo da mulher mãe. Estou pronta para críticas, ao trazer um tema na contramão do que se faz nessa semana que antecede o dia das mães, mas ao falar de sexualidade é importante falar de intimidades que aproximam e são necessárias na vida do casal: intimidade espiritual, intelectual e afetiva. Mas existem alguns aspectos que devem ser preservados até que para estimular o desejo, como um pouco de mistério, segredo, sedução, pois a convivência íntima de um casal também é influenciada por esses sentimentos. Em qualquer circunstância, esteja o casal envolvido amorosamente na família fundada por eles, desgastada pelo tédio, pelas obrigações rotina ou doença, a esperança é o resgate do namoro. Qual casal hoje se permite dançar descalço no tapete da sala? São poucas as mulheres que após a maternidade encaram o sexo como uma gostosa brincadeira. Basta que para isso não se esqueça do que ainda se é, mulher que tem nome próprio e não é apenas mãe, que chama seu homem pelo nome e não de pai. A falta de calor e sensualidade empobrecem a relação. Em alguns casos, uma crise conjugal ou até mesmo uma insatisfação generalizada podem funcionar como um choque saudável, que reestrutura a mulher e chama a atenção para algo que está em ´ponto morto´. Após a maternidade, via de regra, o casamento pode ser o lugar onde menos se faz sexo e quando se faz não é o mesmo em qualidade como antes. Mas a retomada é possível, basta que se mantenha acesa a chama da mulher que se quer e se sonha ser e junto com ela tornar-se a melhor mãe do mundo.
Márcia Atik |