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Sexualidade  
Passeio na Ilha
Homossexualidade feminina é tema de artigo

A idéia de escrever sobre esse tema vem, na verdade, por causa de duas cartas recebidas, com dúvidas e aflições. Uma de uma  mãe angustiada e outra pela própria garota aturdida em se descobrir.

Eu estou falando de homossexualidade feminina, e creio firmemente que o conhecimento é o primeiro passo para que preconceitos e angústias sejam derrubados, então falemos disso: “Vieste. Fizeste bem. Eu te aguardava. Puseste folia no meu coração, que se abrasa de desejo.” A autora desta frase foi Sapho, uma das raras filósofas mulheres que deixou um pequeno e quase desconhecido legado, destruído pelo papa Gregório VI pois a criação feminina, não fossem filhos era ignorada.

Essa mulher que morava na ilha de Lesbos na antiguidade grega, reunia mulheres para pensar, discutir e, quem sabe, criticar ou se lastimar. Mas de qualquer modo produzir filosofia a partir do ponto de vista das mulheres.  Daí chamarmos de lésbicas mulheres que tenham relações ou desejos homoafetivos.

No século XIX, aqui no Brasil falava-se da relação de intensa amizade entre dona Leopoldina e a inglesa Maria Graham, isso apenas para dizer que as relações afetivas entre mulheres sempre existiram. Mas passavam sempre aos olhos da sociedade como intensa amizade ou cumplicidade, pois nessas relações também o desejo feminino nunca foi valorizado.

Não se trata de contar a história da homossexualidade feminina e sim de dar uma pincelada para percebermos que ela esteve sempre nos bastidores da história oficial.

O que eu pretendo na verdade é refletir o quanto a humanidade é contraditória num assunto que caminha com ela, mas sempre à margem.

De uma maneira geral, a expressão da sexualidade fica reduzida a um coito, a uma relação sexual, não levando em conta outros aspectos, às vezes até nem ligados aos órgãos genitais que são tão ou mais importantes que isso.

Na teoria, a liberdade é um sentimento que todos nós perseguimos, mas na prática só conseguimos quando temos coragem de viver em harmonia com o que sentimos, pois quando foge do padrão somos invadidos por um vendaval não de vento, mas de culpas e nos sentimos imorais ou doentes. Imoral é a sociedade que não valoriza o afeto e o desejo na construção de uma relação afetiva.

Charlote Wolff bem definiu em seu livro – Amor entre mulheres – “...não é o homossexualismo, mas o homoemocionalismo, que constitui o centro e a própria essência do amor das mulheres entre si.”

Esse tipo de relação, de comportamento, é visto como uma orientação do desejo. Porém, esse conceito é recente, pois somente em 1993, a Organização Mundial da Saúde deixou de considerar a homossexualidade como uma doença, passando a ser uma condição da personalidade humana. O Conselho Federal de Psicologia passou a condenar as promessas de tratamento para reverter a homossexualidade em 1999.

O lesbianismo nada mais é do que uma variante da sexualidade humana. As lésbicas são, fora do comportamento sexual, exatamente iguais às outras mulheres, bonitas, feias, talentosas ou rudes, fiéis ou desleais, dominadoras ou submissas.

Depois dessa introdução geral, uma conversinha olho no olho para as mãe e famílias...

A homossexualidade feminina tem algumas características particulares, ela é muito mais afetiva do que sexual. Embora o relacionamento sexual exista, são relacionamentos homoafetivos na sua essência.

Não serei hipócrita em dizer que a mãe ou a família de uma jovem que assume sua homossexualidade deve aceitar sem angústias, pois sabemos que temos um script pronto no momento que nossos filhos nascem. E nas meninas, desde a primeira boneca, já estamos pensando na nossa princesinha realizando os nossos sonhos, casando, tendo filhos e sendo a rainha do lar.

Nada contra isso, mas também sabemos que os filhos raramente satisfazem esse enredo, pois a vida deles não é nossa e os sonhos deles são particulares. E, na medida em que crescem, assumem seus desejos, independente de nossa romântica visão.

Proponho uma conversa franca, podendo até falar da decepção, mas nunca a culpando ou forçando a mudança.

Como mãe e com o dever de preparar os filhos para a vida oriente-a apenas para que tenha dignidade nessa sua opção, que se respeite e se firme na vida pessoal, familiar e profissional como uma mulher de fibra, digna da admiração e do orgulho da mãe.

Não temos espaço para esgotar o assunto, mas esse é o começo para que nem você nem sua filha sofram o desencontro e o abandono em que muitas famílias se colocam quando os filhos fogem a sua expectativa principalmente em escolhas ligadas à sexualidade e ao afeto.

“Tal como os deuses que venero, quando me sento a vossa frente, hóspede minha. Sinto-me feliz com os ouvidos atentos a vossa voz, tão doce, tão próxima, vosso riso encantador faz com que o coração pulse em meu peito”. Sapho, séc.VI AC.



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