Não sei bem se era esse o título que eu queria dar a esse texto, pois na verdade paixão está intimamente ligada ao novo, à descoberta e, principalmente, à surpresa. E num casal que já tem um caminho percorrido esses elementos não existem mais. Será por isso que o caldo amorna até dando impressão de que está tudo acabado?
Quero escrever sobre isso, primeiro porque vejo na clínica, assisto na vida e escuto nas rodas de conversa o quanto os casais estão perdidos numa busca de resgatar o que acham que seria o ideal de relação e quanto se atrapalham e se frustram.
Convenhamos que o ideal só exista nas novelas, pois lá a história termina quando o casal vence os impedimentos e desencontros e se juntam para viverem felizes para sempre.
Creio que aí está a maior crueldade com os casais. Pois é nesse momento que as coisas começam a acontecer, fatos ligados à vida real, medos, acertos e erros de cada ser humano e a estupefação diante de uma crise traz uma desordem que, na maioria das vezes, é confundida com desamor, fim e, não raro, adultérios e abandonos.
Essa crise pode tanto ser financeira, como a doença de um filho, ou mesmo a falta de tempo tão comum nos dias de hoje, quando a rapidez rege as relações atingindo de maneira radical as relações afetivas. Lá se foi o tempo de olhar nos olhos, perceber necessidades, fazer surpresas.
E o diálogo então, quando as conversas se revezam nos cuidados com os filhos, as atividades da casa e quando finalmente se encontram estão exaustos?
Há quem diga que o silêncio causa mais estrago que uma boa briga, na qual as diferenças e os desejos são expostos dando margem à reconstrução do caminho, onde a ponte precisa de conserto.
Pesquisas já mostraram que a felicidade conjugal tem ligação direta com o tamanho do coração e as doenças psicossomáticas aparecem como o grito ou a lágrima que não expressada.
Nesse contexto, a defesa daquele bom e velho diálogo, reforçando a intimidade, desvelando um ao outro ainda é o bom conselho apesar das boas novas deste século.
Estudo da Universidade do Texas sobre felicidade conjugal concluiu que os homens gostam de passar suas horas de folga em família; já as mulheres preferem fazê-lo sem a família.
Isso que parece um grande desencontro, na verdade é a luz que faltava, a partir da falta de diálogo para que os casais redefinam sua imagem de família feliz e mexam nos seus padrões, procurando satisfazer a um e a outra.
Ressalto que as necessidades diferentes não necessariamente separam as pessoas e sim as unem. Isso porque estamos numa época de respeito à diversidade em todos os sentidos e depois de muitos enganos podemos falar que as necessidades de homens e mulheres são diferentes, não fazendo disso que sejam seres de planetas distintos.
Muito mais que isso: seres complementares que, ao perceberem isso, terão o que comunicar de si ao outro, renovar o outro com suas descobertas e necessidades, enriquecendo a união.
Tanto o desejo quanto o interesse são facilmente corroídos pela rotina. Sabe-se que os casamentos duradouros e satisfatórios são aqueles que conseguiram fugir dela, pois a rotina num relacionamento, além de triste é limitadora, nesse sentido as diferenças são bem-vindas desde que bem utilizadas.
Acho que o segredo de um bom casamento é manter um clima de namoro, sei que as vezes é impossível, mas o segredo é esse, manter o clima de interesse entre as pessoas. Normalmente, existem poucas possibilidades de um espaço a dois; criá-los é o grande desafio.
Para cada casal existe um tempo diferente, mas como já dissemos em aproximadamente dois anos acaba a paixão e, a partir daí, o casal começa a lidar com a rotina.
Lidar quer dizer percebê-la e encará-la, pois o desafio em si já é um aspecto que faz com que a esperança seja ativada. Digo esperança não no sentido passivo e de que algo traga magicamente a satisfação dos anseios.
Gosto muito da expressão esperança ativa, aquela em que cada um se movimenta em busca do que deseja. Dessa maneira, o destino final pode estar longe, mas as belezas e agruras do caminho já fazem com que o percurso seja pleno de vida e descobertas. Experimente! |