Numa roda de homens e mulheres maduros, independentes ouvi um papo que causou, movimentou e apaixonou as opiniões. Era uma discussão sobre o encontro de homens e mulheres: uns diziam que isso é difícil, pois as mulheres só querem homens abastados e que o início para uma relação era m os bons restaurantes, e as benesses patrocinadas por eles. Os homens, quase na sua maioria, se mostravam reticentes em formalizar uma parceria, pois viam as mulheres desse jeito. Quase uma caricatura de interesseiras e aproveitadoras.
As mulheres por sua vez se exasperavam por ver tão ignóbil leitura de algo que elas não sentem nem pensam; querem sim homens livres de preconceitos e medos de suas maturidades e independência. Elas diziam que eles vêem as mulheres assim porque procuram justamente mulheres frágeis para se sentirem poderosos e que eram medrosos de conviver com uma mulher em igualdade de condições.
Achei que era um assunto para refletir, talvez escrever e não sabia por onde começar. Sinceramente fiquei impactada, mas logo em seguida sou surpreendida por uma conversa entre moças, dessa vez, mais novas. Diziam elas que ao sair quem devia pagar o motel e ter o carro eram os homens, caso contrário, nem arriscavam conhecer melhor. Pois é! A linha de corte estava na aparência e no bolso. Será que aqueles cinqüentões liderados pelo Marcão tinham razão?
Resolvi destrinchar um pouco esse assunto pois as opiniões calorosas e divergentes mostram a necessidade dessa reflexão. É inegável que existem diferenças culturais em relação à sexualidade feminina e masculina. Também não nego que as relações amorosas nos últimos 50 anos foram contaminadas por um desejo de conquista e poder, resultando numa fantasia de que homens e mulheres são rivais.
Os casais devem ficar atentos para perceber quando estão impregnados por tal comportamento, para com essa consciência ter uma mudança de atitude frente aos seus parceiros para que o espaço do desejo fique livre e fluente. Além de que me preocupa muito a fala feminina, em pleno século 21 de que - eu não sinto falta de sexo - geralmente dita por mulheres, desde as mais jovens até as mais experientes.
A mulher é muito mais impulsionada por uma crença de que o exercício da sexualidade seja apenas masculino do que uma real falta de desejo, mas é natural que, com essa crença, o desejo vá ficando cada vez mais embotado. O homem já nasce tendo que provar que é homem sendo liberado sexualmente e para a mulher as reservas são apresentadas desde crianças.
Essa diferença cultural muitas vezes faz com que se acredite que os estímulos sexuais do homem e da mulher sejam diferentes, e mesmo que exista o desejo, as mulheres muitas vezes têm dificuldade em reconhecer essa necessidade, porque aprendeu que homem só pensa nisso e as mulheres nem tanto.
Tirando as questões da educação feminina mais repressiva eu não acredito que homens e mulheres sejam diferentes, pois a sexualidade é instintiva, e faz parte de nosso desenvolvimento.
Rever conceitos sobre sexo é muito importante, pois passa pelo conhecimento formal, saber como nosso corpo funciona e conhecer melhor o corpo facilita que se aprenda a reconhecer o desejo e, ao reconhecê-lo, buscar satisfazê-lo.
Desde que haja afeto, objetivos em comum, cumplicidade e principalmente intimidade, nada que uma boa conversa entre os parceiros não possa ajudar e fazer com que cada um se adapte um pouco mais ao ritmo do outro e que ambos participem do jogo amoroso vendo a si, as suas necessidades e também ao outro.
Tem um trecho de uma poesia árabe que eu creio traduza bem o que eu estou dizendo: ‘O prazer da abelha é sugar o mel da flor, mas o prazer da flor é entregar seu mel à abelha, pois que para a abelha, uma flor é uma fonte de vida. E para a flor, uma abelha é mensageira do amor. E para ambas, a abelha e a flor, dar e receber prazer é uma necessidade e um êxtase’.
Essa troca poética entre a abelha e a flor representa claramente o modelo perfeito da vivência da sexualidade humana que independe de padrões e de premissas. Ouso dizer que acredito muito mais em sexo sem amor do que amor sem sexo como relação de qualidade e de satisfação.
É bom ainda lembrar sempre que sexo não é exame de admissão, uma prova que temos que fazer com resultados sempre muito aplaudidos e sim uma agradável e prazerosa brincadeira a dois.
(*) Márcia Atik é psicóloga, especialista em Sexualidade, Doenças Psicossomáticas, Transtornos Alimentares e Terapia de Família e Casal.
Contato: www.marciaatik.com.br
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